quarta-feira, janeiro 26, 2005


Não adianta o filho mal tentar competir com o filho bom. Filhos bons já ganham no útero um certificado de preferência, e os pais é claro, ganham a certeza de que pelo menos um de seus gozos vai render alguma coisa, algum deles vai ser algo na vida. Posted by Hello

O bebê que nunca tinha nascido

A verdade é que não cuidaram direito de mim desde que eu era pequena.
Sempre fiquei envolta nesse manto sombrio, nessa maldita hipocondria que assola meu ser desde que nasci.
Dentro de uma bolha eu sempre fui pra escola, mas nunca entendi o que os outros queriam dizer, o meu choro era mais alto.
Passei tardes cinzentas flutuando na minha tristeza, na minha solidão no meio de todas aquelas crianças correndo e gritando.
E eu treinei com todas elas, treinei duro, e no dia da apresentação cantava com toda a minha força como o professor havia mandado, eu me esforçava ao máximo, me esforçava para ninguém, para os pais dos outros me verem, para os pais dos outros se emocionarem, talvez eu pudesse fingir que aquele gordo hipertenso de camisa azul se esvaindo em lágrimas fosse meu pai. Não adiantou muito, eu não consigo enganar ninguém. Todo mundo abraçando o papai e eu voltando para o inferno sozinha de novo.
Mais choros cinzentos e eu treinava de novo, dessa vez era pra ser uma mágica. Todas as crianças felizes, gritando faziam a mágica e abraçavam a mamãe. Mas parece que de novo eu não tinha ninguém pra abraçar, nem eu, nem minha irmã.
Mas onde está a mãe de vocês?
Ela está no hospital.
Nossa! Ela está doente?
Não, ela trabalha lá, e nós morávamos lá, crescemos lá.
Sempre aquele cheiro infecto, aquele cheiro de doença, aquele cheiro de falta de banho. A macabra sala dos brinquedos onde eu nem tinha vontade de entrar, as criancinhas mortas usavam tudo, e os bebezinhos com agulhas na cabeça não podiam fazer nada. Sempre havia algum choro, nunca havia silêncio, era difícil de descansar na sala de espera pra lugar nenhum. Haviam crianças separadas, ninguém podia chegar perto delas, sua doença era perigosa demais.
E aquele garotinho que um dia tentou roubar minha mãe, já não bastava os malditos irmãozinhos, ainda vem esse coitado doente querendo uma parte dela também. Ali passei grande parte da minha infância, brincando em um hospital, brincando no jardim da doença, cantando com o desespero, fazendo bagunça no quarto da morte.
Mas não foi lá, no meu castelo apodrecido, foi fora dali que eu encontrei o rei da minha inspiração, o Deus do meu desejo, meu herói para sempre. Encontrei-o em um porão da minha escola, lá, escondido bem no fundo, como um segredo sujo, todas as crianças tratavam aquilo como um segredo, como se fosse algo perigoso, e com cautela perguntavam:
Ei, você já viu o bebê que nunca nasceu?
E todas iam correndo pra lá, cheias de curiosidade e excitação, e lá estava ele, em cima de uma prateleira, dentro de um pote de vidro, flutuando no álcool, alheio a todas aquelas criancinhas babando por ele, alheio a toda aquela inquietação, a toda aquela admiração...
Mas o que aconteceu com ele?
Ele morreu na barriga da mãe
É, ele morreu antes de nascer
Ele nunca nasceu, nunca, nunca...
Ele ficava ali, dormindo, quieto, e eu ficava ali, contemplando, observando meu sonho pueril, invejando o meu maior ídolo, porque tudo o que eu queria era ser igual a ele, igual, tudo que eu queria era trocar de lugar com o bebê que nunca tinha nascido.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Só dói quando eu engulo

Minha garganta dói
Dói muito
Só dói quando eu engulo
Só dói quando eu tento engolir minha saliva
Meu estomago dói
Minhas costas doem
Minha cabeça dói
Meu ouvido dói
Só dói quando eu engulo
Só dói quando eu respiro
Tudo dói
Meu peito dói
Dói fundo no meu pulmão
Uma dor ardida
Uma dor apertada
Só dói quando eu respiro
Respiro
Respiro
Não se esqueça de respirar
Dor apertada
Como se tudo fosse explodir
Como se tudo dentro de mim fosse explodir e voar
Como se tudo dentro de mim fosse amarrado por uma corda podre
Uma corda podre....é isso aí, bem, você sabe, cordas podres não
duram muito tempo.

sábado, janeiro 08, 2005


Ele era um bostinha. Nada nele era original, nada. Até seu nome era copiado de alguém, e o pior, não só de uma pessoa, mais de duas.
Pobrezinho daquele garoto, ele era tão.......tão.......leso.
Ele saía a noite, ia sozinho nas festas porque sabia que todas as pessoas que ele conhecia estariam lá, então ele passava a noite inteira procurando alguém em quem se grudar, como um carrapato.
Ele passava a noite inteira procurando amigos instantâneos, todos eles sabiam o nome dele, mas nunca se lembravam na hora de fazer alguma coisa legal.
Na verdade, ele fazia falta, se ele não estivesse ali, de quem eles ririam?
Sua existência era tão fútil quanto a de qualquer outro ser humano que habitasse a terra, e por isso, ele resolveu estabelecer um objetivo em sua vida: Ser mau!
Puxa, agora ele realmente era muito mau, até mandava as pessoas calarem a boca.
E não é que agora as pessoas prestavam mais atenção nele? Até diziam: Uau, você viu como o bostinha está malvadão? E depois disso, simplesmente o esqueciam se novo.
Mas dessa vez, ele queria mais, queria não ser esquecido, mas como? Sua existência já havia sido planejada para nunca ultrapassar seu próprio corpo.
Então ele pensou, pensou e pensou. Passaram-se semanas, meses, anos, e ele finalmente concluiu: Devo ser como alguém que acho legal!
Pronto, agora ele não causava mais perigo nenhum a ninguém, porque pela primeira vez, fez algo original em sua vida: não foi nem um pouquinho original. Pelo menos ele achava. Posted by Hello

quinta-feira, janeiro 06, 2005


Ah............adorável fim de ano
Posso me empanturrar de comida até ela sair pelos meus tímpanos
Desde o dia do natal eu estou soltando foguetes no meu guarda-roupa. Agora que o inferno do colégio está suspenso, posso passar os dias trancada no meu quarto, no meio de toda aquela tinta, no meio de tudo que eu produzi desde que eu estava no útero, toda aquela porcaria não pode ser chamada de arte.
Algumas de minhas obras me trazem muitos problemas, algumas delas estão manchadas com meu próprio sangue.
Trancada no meu quarto vejo meu diário aberto, narrando esse discurso indireto errado e imbecil que eu tento contar......
Dia 25 de dezembro, exatamente uma hora da tarde, onde estava? Chorando em uma fábrica abandonada.
O que vai ser da virada?
Todos os finais de ano tem o mesmo cheiro de bebida saindo do quarto do meu pai. A rua da frente já está banhada no rio de vinho que ele derramou. E eu ainda tenho que agüentar piadinhas sobre alcoolismo.
Hoje vou sair daqui, ah eu também vou beber com meus amigos, longe da maldita família, longe da tristeza da minha casa, mergulhada na melancolia da rua.
Eu costumava ser tão........eu costumava ser................nada.
Eu estou no caminho certo pra conseguir isso, eu posso cair e nunca mais voltar, mas e daí? Eu nunca quis nada mesmo. Hoje vou completar a juventude perdida e sem futuro.
Sabe, analisando tudo, eu acho que essa é a frase mais verdadeira que existe:
Poesia da adolescência, o gênero literário mais insuportável que existe.  Posted by Hello