segunda-feira, janeiro 28, 2008

...os quatro longos anos...e a cirrose apática...


Originalmente postado em 29 de Setembro de 2004


Ele tinha crescido

Ele se cortou com a garrafa de bebida

Ele tinha crescido

Seu cabelo não cheirava mais a manteiga, mas sim a fumaça. Ele havia perdido aquele doce cheiro de criança para o salgado cheiro do suor. É assim que você vê quando cresceu, quando no fim da noite suas roupas cheiram fumaça e bebida misturadas com um perfume que não é seu.

Ele tinha crescido

Ele foi até o outro lado da cidade para comprar seda. Não podemos despertar suspeitas. Ele havia encontrado um novo jeito de ficar feliz, e isso era realmente muito, muito legal.

Ele tinha crescido

Seus amigos não eram mais os mesmos. Ele não era mais o mesmo. Seus interesses haviam mudado, agora ele queria fazer tudo de uma vez, ele não queria mais voltar pra casa, só queria ir embora.

Ele tinha crescido

Ele tinha crescido e estava tão perdido dentro de sua própria imensidão, que não conseguia encontrar o interruptor de luz.

Ele tinha crescido

Ele estava perdido

Elas não sabiam o que fazer. Aquilo tudo estava muito chato, era pra ser legal, mas estava chato. Nunca ficava tão legal quanto era pra ser, isso cada vez mais as chateava de um modo incomensurável. Estava ficando insuportável. Elas queriam explodir tudo

Elas não sabiam o que fazer.

Eles brigaram de novo. Eu nunca entendi direito, mas eles brigaram de novo. Eles brigaram por costume. Eles brigaram porque se amavam. Eles brigaram porque estava ficando chato. Eles brigaram, e só assim perceberam o quanto se amavam. Eles vão fugir. Agora eles decidiram ir embora, ir embora para sempre. Decidiram ficar juntos para sempre. Eles brigaram de novo. Eles brigaram porque se amavam. Eles decidiram ir embora, e eu nunca entendi direito, porque isso me apavora.

Eles vão embora.

Eu ouvi o barulho do carro chegando. Eu ouvi o barulho do carro passando. Eu ouvi o barulho do carro indo embora.

Eles não se olhavam.

Eles não se falavam.

Eles não chegavam perto porque tinham medo um do outro. Eles nunca disseram o que queriam porque tinham medo um do outro. Eles fingiam que não sabiam de nada porque tinham medo um do outro. Eles tinham medo um do outro porque era tudo o que eles precisavam. Eles tinham medo de sentir aquilo de novo porque sabiam que não iam mais conseguir viver sem. Eles tinham medo um do outro porque necessitavam um do outro.

Eles não se olhavam

Ele só queria se divertir

Ele não ouviu os avisos sobre como se divertir de um modo seguro. Ele só queria se divertir e agora: Parabéns Papai!!!
- Nossa, porque você está tão feliz?
- Porque minha namorada perdeu o bebê!

Ele começou a se divertir. Ele começou a fazer protestos. Ele começou a fazer bagunça. Ele começou a beber. Ele começou a viver lá pelos vinte anos.

- Vinte anos? Meio velhinho hein?
- Pois, é.
- Até os vinte, ainda faltam quatro longos anos. Até lá, agente já morreu de cirrose apática.
Hahahahahaha......ha..........ha..........................ha.... ............................................ha............

Todos eles cresceram.

Todos eles passaram a vida inteira esperando por isso.

Todos eles achavam tudo isso uma bosta.

Eles realmente tinham crescido.

sábado, janeiro 19, 2008

Vertigem



"Aos poucos, abdicou de qualquer benevolência. Esqueceu fotos, documentos, resquícios de uma história possível de ser contada. Esqueceu para se tornar o que não se conta - uma ilusão de ótica, um esboço de intenções, uma sombra sem sombra. A própria razão, desmiolada e bela, soberba e frágil. Insuficiente."






Vertigem, José Eduardo Gonçalves

everyonelovesme



... Who am I??

I'm your fake plastic love...


for ever and ever...

quinta-feira, janeiro 10, 2008

O menino da caixa


O menino tinha nascido na caixa.

E era aquilo mesmo, até os dez anos mais ou menos ele dormiu na caixa. A caixa tinha aranhas e escorpiões, afinal, eles também são seres vivos.

A caixa era infinita dentro de si, era perigosa e estranha. Tinha o ar meio azul, velhas loucas, araçás e diabinhos de rabo triangular...mas ele não conhecia nada além disso, lá todos os moletons eram veludo.

E as coisas pra ele eram assim, do jeito que eram na caixa, só que ele não se preocupava, porque nunca havia imaginado que existissem pessoas que não morassem na caixa.

Aos poucos ele foi percebendo que tudo era diferente, as pessoas moravam nas casas, os cachorros nas caixas.

Existiam as famílias e tudo mais. Os quartos e as camas, e as pessoas tomavam banho.

Antes tudo fazia parte da mesma ninhada, mas agora, cada um precisava ter seu quarto, sua cama... e sua toalha.

Os bons costumes. Depois da escola ele começou a entender o que tudo isso significava. Foram apresentadas todas as regrinhas: usou lava seca e guarda, não por os pés no sofá, Deus que ajude e coisas do tipo.

Surgiu ainda a comunicação. Entendem?...a comunicação...sabe?...aquele negócio lá...

Agora ele não sabia o que era pior, a caixa ou a ausência. Pelo menos a caixa era limitada sem regras. A ausência é ilimitada e cheia de regras.

E vocês me perguntam, o que aconteceu com o menino?

Ah, ele é mais um desses indivíduos que você vê andando por aí com um ar meio absorto olhando pra cima... olhando pra baixo... tênis estourado... copo na mão... afinal, com caixa ou sem caixa ele ainda não sabe de nada.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Primeiro do ano


Da terceira série...

Fodi-me.

Decidi subir no muro para ver os fogos.
Estourei a torneira, me ralei inteira.
Fechamos o registro para nada mais sair

Pelo menos os vizinhos não viram nada,
Estavam todos olhando para o céu.



Sabe...Eu consigo enxergar através da membrana nictitante
O problema é que tudo sai embaçado
Então eu não sei se estou realmente olhando ou se estou só achando.


Lembrar... É isso mesmo o que você tenta.
Você sabe onde está exatamente agora??


A gente parou num morrinho pra ver os foguetes...

Uma polaca de família superou o medo e nos deu feliz ano novo

Deus que ajude. Que a senhora seja feliz e que seu ano seja repleta de luz (afinal, ela era uma polaca).

Daí viemos embora beber o vomito. (uma champagne vagaba que os queridos progenitores nos deixaram carinhosamente)

Então, eu tive a certeza de que não moramos na lua.